segunda-feira

Nostalgia

Uma estranha nostalgia tem me tomado deis de que sai da UTI, é como se antes eu visse o mundo por uma droga de um caleidoscópio, ou coisa do gênero. Eu sei que pode até parecer papo de louca mesmo porque, sinceramente eu estou pouco me ferrando se alguém aqui vai me achar uma louca ou não - mas eu finalmente notei o quanto todas as pessoas são cegas, e de tantas maneiras que você nem acredita.
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Hoje mais cedo, durante a aula de álgebra, uma garota que estava a um ou dois metros de mim me chamou atenção; não tinha nada de mais, é que tenho mania de ficar observando os outros quando não tenho nada melhor para fazer. Diferente de mim e de quase todas as outras alunas, ela estava concentradissima na aula, copiando a formula que a professora havia escrito no quadro. Pouco mais atrais, estavam algumas meninas conversando sobre alguma festa que iria ter no feriado, dando rizinhos, passando bilhetes, e toda essa merda enquanto a professora estava de costas. Eu estava apenas observando sem nenhuma razão em especial, aliais nem consigo me lembrar o porquê eu comecei a pensar nisso, mas de repente notei que nem a garota ao meu lado e nem o grupinho que estava conversando tinham a menor noção de que eu estava as observando.
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Aquela idéia me surpreendeu um pouco, mas não por isso, eu voltei minha atenção novamente para a menina da carteira ao lado; ela já havia terminado de copiar e estava agora fazendo atentamente o exercício seguinte da apostila. Era daquele tipo que se esforça para entender a matéria, apesar de saber muito bem que não precisaria se esforçar nem um pouquinho que mesmo assim tiraria 1oo em todas as provas, daquele tipo inteligente mesmo, mas ainda assim ela realmente não tinha idéia de que estava sendo observada, estava totalmente desligada. As pessoas tem essa estupidez de acharem que estão no controle de suas vidas, acham que podem prever tudo o que poderia acontecer em determinada situação e se acomodam em sua pequena noção de realidade. E se ela descobrisse que aquela mesa não existe?? Aposto que ninguém nesse maldito colégio já imaginou como é essa sensação. Naquela hora desejei do fundo do meu coração que algo acontecesse com aquela garota; comecei a imaginar e me perguntar o que se passaria por aquela cabeça antes de ser atingida na cara por uma cadeira naquele exato momento. Voltei meus olhos para minha carteira em busca de alguma coisa mais discreta, afinal não seria muito fácil alguém atingir uma pessoa com uma cadeira durante a aula. Mas será que ela ao menos se daria conta de estar morta?? Para falar a verdade nem sei se notaria.

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Me lembrei então de um grande livro de Biologia que elava no meu armário, mas enquanto estava tentando lembrar quando seria minha próxima aula de biologia, até que me interromperam. _________________________________________________________________________________________

- Roxane, por que não esta fazendo os exercícios ? ________________________________________________________________________________________
Mesmo eu estando na primeira fileira, a miserável da professora levantou a voz, fazendo com que, dês da garota ao meu lado, até as meninas que conversavam pagassem e olharem para mim. Ficou claro que ela estava me usando como exemplo para intimidar a classe, aquilo me deixou uma fera, e alem disso, eu odeio que me chamem de Roxane. É um daqueles nomes metidos a besta que ardem no ouvido da gente, ainda mais com aquela voz de “eu engoli areia” que a senhora Shwander tem.
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- Eu já terminei os exercícios professora - respondi com a expressão mais humilde que acreditava existir.

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- Ah é ? Então não se importaria de me ajudar com esse exercício não é mesmo?

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É impressionante como algumas pessoas tem essa necessidade de reafirmar sua autoridade sobre as outras, mesmo depois que a questão já foi encerrada. Mas de fato, eu não me importava nem um pouco de ir até o quadro resolver a questão, pois modéstia a parte, eu já tinha acabado aqueles exercícios a muito tempo, e já estava razoavelmente adiantada na matéria. Mas por algum motivo, eu senti muita pena daquela pobre mulher, com mais ou menos uns 65 anos, a senhora Shwander devia ser professora á uns 40 anos, e nem assim conseguia fazer com que as pessoas prestem atenção na sua aula, deve ser muito doloroso; aquela tinha sido só mais uma tentativa desesperada de chamar a atenção da classe para o fato de ela estar ali.
_________________________________________________________________________________________ - Eu não entendi professora. - disse
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-O que você não entendeu? – Respondeu a professora secamente. Odeio quando as pessoas são secas quando estamos tentando ajudá-las, mas como ela poderia saber, era muito velha. E eu realmente estava com pena dela.
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- Eu não sei... Eu não entendi por que... Quer dizer... – Toda a classe estava atenta agora, é engraçado como as pessoas gostam de presenciar uma humilhação.
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- Roxane, é sua primeira aula aqui no Hertz, por isso apenas vou deixar essa passar, mas não quero que isso se repita ouviu?
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É obvio que aquilo aumentou a moral da velha, bom, pelo menos para ela.
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___________________________________________________________________________________________ - Sim senhora - respondi e voltei para o meu lugar.
_________________________________________________________________________________________ Aquilo que deixou contente. Esse tipo de coisa besta sempre me deixa contente. Lembro-me de uma vez, na antiga escola, de um garotinho que todo mundo excluía, porque o imbecil ainda acreditava no coelhinho da páscoa. Nós estávamos na 4ª serie e a essas horas ninguém mais acreditava nessas besteiras, menos aquele menininho. Um dia na aula de artes, estávamos todos fazendo cartõezinhos de páscoa para entregar para nossos pais, toda aquela besteira de feliz páscoa ou eu quero o ovo tal”, e todas as crianças estavam aporrinhando o coitado por que ele estava “escrevendo” patinhas de coelho no cartão para entregar ao próprio coelho; todos aqueles pirralhos rindo e dizendo que ele não sabia escrever e coisas do tipo. Não entendo aonde vão parar os professores nessas horas! Esse tipo de injustiça sempre me deixou uma fera! Eu fiquei tão indiguinada que fui lá escrever com o garoto - tipo com patas. Aquilo que não melhorou muito a situação dele, e muito menos a minha, mas ainda assim aquela coisa me deixou contente. _________________________________________________________________________________________
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Irônico não?

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